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“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS” - I PEDRO 4 e 5
“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS” - I PEDRO 4 e 5

“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS”

Tradução de “Synopsis of the Books – John Nelson Darby

PRIMEIRA EPÍSTOLA D S. PEDRO – CAPÍTULO 4 e 5

Capítulo 4

Desde o início deste capítulo até o fim do verso 7, o apóstolo continua a tratar dos princípios gerais do governo de Deus, exortando o Cristão a conduzir­-se de harmonia com os princípios do próprio Cristo, o que o levaria a evitar o comportamento que esse governo condena, enquanto esperava o Julgamento do mundo pelo Cristo que ele servia. Cristo glorificado, como O vimos no fim do capítulo precedente, estava pronto a julgar; e aqueles que se irritavam contra os Cristãos e eram conduzidos. pelas suas paixões, sem se inquietarem por causa desse Julgamento que vinha, haviam de dar contas a esse Juiz que não queriam reconhecer como Salvador.

Os sofrimentos de que se trata aqui são, como veremos, sofrimentos pela Justiça (capítulos 2:19 e 3:17), em relação com o governo e o Juízo de Deus. O princípio era este: Os Cristãos aceitavam e seguiam o Salvador, que o mundo e a Sua nação rejeitavam; seguiam o santo exemplo na Justiça como peregrinos e estrangeiros, deixando a corrupção que reinava no mundo. Andando em paz e praticando o bem, eles evitavam, até um certo ponto, os ataques dos seus inimigos; e os olhos daquele que vela do Alto sobre todas as coisas, repousavam sobre os justos.

Todavia, nas relações da vida corrente (ver capítulo 2:18), e relações com os outros homens é bem possível que tenhamos de sofrer e suportar flagrantes injustiças. Ora o tempo do Juízo de Deus ainda não tinha chegado. Cristo está no Céu. Ele tinha sido rejeitado na Terra, e a porção do Cristão consistia em O seguir. O tempo da manifestação do governo de Deus seria por ocasião do Julgamento que Cristo há de realizar. Enquanto espera, a Sua maneira de viver aqui, na Terra, deu o modelo daquilo que o Deus de justiça aprova (capítulos 2:21-­23; 4:13 seguintes).

Devemos praticar o bem, sofrer e ter paciência. É isto o que é agradável a Deus; foi isto o que Cristo fez. Valia mais, se Deus o achasse bom, sofrer pelo bem do que sofrer pelo mal. Cristo (capítulo 2:24) levou os nossos pecados, sofreu por causa dos nossos pecados, o Justo pelos injustos, para que, mortos ao pecado, vivamos para a Justiça e sejamos por Ele levados ao próprio Deus. Cristo está agora no Céu; está pronto a Julgar. Quando o Juízo chegar, os princípios do governo de Deus serão manifestados e prevalecerão.

O começo do capítulo 4 requer algumas observações um pouco mais pormenorizadas. A morte do Cristo é ali aplicada à morte prática aos pecados - estado que é posto em contraste com a vida dos Gentios.

Cristo sobre a Cruz (Pedro faz alusão ao verso 18 do capítulo precedente) sofreu por nós na carne. Ele está morto de fato quanto à Sua vida de homem. É necessário armarmo-nos do mesmo sentimento e não tolerarmos nenhuma atividade de vida ou de paixões que sejam segundo a vontade do velho homem, mas sim sofrermos quanto à carne, não cedendo nunca aos seus desejos. O pecado está em ação, em nós, da vontade da carne, da vontade do homem enquanto viver neste mundo.

Quando esta vontade atua, o princípio do pecado está lá, porque nós devemos obedecer a Deus. A vontade de Deus deve ser a fonte da nossa vida moral; e deve sê-lo muito mais agora que temos o conhecimento do bem e do mal (a vontade da carne, não subordinada a Deus, está em nós).

É preciso, pois, que, ou tomemos a vontade de Deus como nosso único motivo, ou atuemos segundo a vontade da carne, porque esta está sempre presente em nós.

Cristo veio para obedecer; escolheu, pois, antes morrer e sofrer tudo do que desobedecer. Assim, Ele está morto ao pecado, que nunca achou entrada no Seu coração. Tentado até ao último grau, preferiu a morte à desobediência, mesmo quando a morte tinha o caráter da ira contra o pecado e o caráter do julgamento. Por muito amargo que fosse o cálice, Ele preferiu bebê-lo a não cumprir, da maneira mais perfeita, a vontade de Seu Pai e a não O glorificar. Provado no mais alto grau, mas continuando sempre perfeito, a tentação que do exterior O assaltava e procurava uma entrada nEle (porque Ele a não tinha dentro de Si) era mantida sempre de fora; nunca penetrou nEle e Ele nunca manifestou nenhum

movimento da Sua própria vontade para com ela. Assim, a tentação não fez senão sobressair a obediência, a perfeição dos pensamentos divinos no homem, e, ao morrer, ao sofrer na carne, acabou completamente com ela, acabou com o pecado' para sempre, e entrou para sempre no descanso, após ter sido provado até ao último ponto e ter sido tentado em todas as coisas semelhantemente a nós 1, quanto à provação da fé, quanto ao combate da vida espiritual.

Ora, o mesmo se dá conosco.

Se eu sofro na carne, a vontade da carne não está seguramente em atividade; e a carne, naquilo que eu sofro, está praticamente morta. Não tenho mais nada a ver com os pecados2• Estamos, pois, libertados do pecado; acabamos com ele, e estamos em descanso. Se estamos contentes por sofrermos, a nossa vontade não atua, o pecado não está lá, de fato; porque sofrer não é vontade, é graça. É a graça atuando segundo a imagem e os sentimentos de Cristo no novo homem; e nós estamos libertos

da ação do velho homem. Ele não atua. A seu respeito, estamos em descanso; acabamos com ele, para já não vivermos na carne o resto da nossa vida deste mundo, para já não vivermos segundo as cobiças do homem, mas sim segundo a vontade de Deus, que acompanha o novo homem.

Já é bastante que tenhamos passado o tempo decorrido da nossa vida fazendo a vontade dos Gentios (Pedro fala sempre aos Cristãos da Circuncisão) e cometendo os mesmos excessos a que eles se entregavam, espantando-se ao mesmo tempo de os Cristãos se recusarem a fazer como eles - e dizendo mal deles por esta razão. Mas eles haviam de prestar contas Àquele que está pronto julgar os vivos e os mortos.

Os Judeus estavam habituados ao julgamento dos vivos, porque formavam o centro do governo de Deus sobre a Terra. O julgamento dos mortos, que nos é mais familiar, não lhes tinha sido positivamente revelado. Todavia, eles eram passíveis desse julgamento, porque foi com esse fim que as promessas de Deus lhes foram apresentadas, a fim de que vivessem segundo Deus em espírito - ou que fossem julgados como homens responsáveis pelas coisas feitas na carne. Porque um ou outro destes resultados devia ser produzido em cada um daqueles que ouviram as promessas. Assim, pelo que concerne aos Judeus, o julgamento dos mortos devia ter lugar em relação com as promessas que lhes tinham sido apresentadas. Porque este testemunho de Deus colocava todos aqueles que o ouviam sob a responsabilidade, de sorte que eles deviam ser julgados como homens que tinham de prestar contas a Deus do seu comportamento na carne - a não ser que eles saíssem dessa posição de vida na carne, sendo vivificados pelo poder da Palavra que lhes era dirigida, aplicada pela energia do Espírito Santo. Assim, escapavam à carne pela vida espiritual que recebiam.

1) Não é, como na versão autorizada, "mas sem pecado", por muito verdade que isso possa ser, mas sim "à exceção do pecado", Nós somos tentados. sendo arrastados pelas nossas próprias cobiças. Cristo teve, no Seu caminho, todas as nossas dificuldades, todas as nossas tentações, mas não tinha nada em si próprio que pudesse conduzi-Lo mal - bem longe disso, certamente! - nada que respondesse à tentação.
2) Pedro detém-se nos efeitos; Paulo, como sempre, vai até à raiz (Romanos 6).

Ora, o fim de todas as coisas estava próximo. O apóstolo, falando do grande princípio de responsabilidade, em relação com o testemunho de Deus, atrai a atenção dos fiéis sobre o solene pensamento do fim de todas essas coisas sobre as quais a carne se apoiava. E este fim aproximava­-se.

Aqui, note-se, Pedro apresenta, não a vinda do Senhor para receber os Seus, nem a Sua aparição com eles, mas esse momento da sanção solene dos caminhos de Deus, onde todo o refúgio da carne desaparecerá, e onde todos os pensamentos do homem perecerão para sempre.

Quanto às relações de Deus com o mundo, em governo, a destruição de Jerusalém, embora não tenha sido "o fim", foi, no entanto, de imensa importância, porque destruiu a própria sede desse governo na Terra, onde o Messias devia ter reinado e onde reinará. Deus vela sobre todas as coisas: Cuida dos Seus, conta os cabelos das suas cabeças, faz contribuir todas as coisas para o seu maior bem, mas é no meio de um mundo que Ele já não reconhece; porque não só o governo terrestre e direto de Deus foi posto de lado, o que teve lugar desde o tempo de Nabucodonosor, e, em certo sentido, desde o tempo de Saul, como também o Messias, que devia ali reinar, foi rejeitado, tomando, por isso, a posição celeste, em ressurreição. É este o assunto desta Epístola.

A destruição de Jerusalém (que devia ter lugar nesse tempo) foi a abolição final dos últimos vestígios desse governo - até que o Senhor venha. As relações de um povo terrestre com Deus, na base da responsabilidade do homem, tinham acabado. O governo geral de Deus tomava o lugar daquele que o precedera; governo sempre o mesmo, em princípio', mas que, tendo Jesus sofrido na Terra, deixava ainda sofrer os seus membros neste mundo. E, até ao dia do Juízo, os maus hão de perseguir os justos, sendo necessário que estes tenham paciência. Acerca da nação, essas relações com Deus não subsistiram senão até à destruição de Jerusalém. As incrédulas esperanças dos Judeus, como nação, foram judicialmente anuladas. O apóstolo fala aqui de uma maneira geral, tendo em vista o efeito da solene verdade do fim de todas as coisas, porque Cristo está sempre "pronto para julgar". E, se há demora, é porque Deus não quer a morte do pecador, prolongando, por isso, o tempo da graça.

Em vista desse fim de tudo o que é visível, devemos ser sóbrios e velar para orar. Devemos ter o coração exercitado para com Deus, que não muda, que nunca passará, e que nos guarda através de todas as dificuldades e das tentações desta cena passageira até ao próximo dia da libertação. Em lugar de nos deixarmos prender pelas coisas presentes e visíveis, devemos refrear-nos a nós mesmos, e à nossa vontade, elevando até Deus os nossos pensamentos. em oração.

Isto leva o apóstolo a falar da posição interior dos Cristãos, das suas relações entre eles, e não do governo geral do mundo da parte de Deus. Eles seguem o próprio Cristo, porque são Cristãos. A primeira coisa que Pedro lhes determina é uma veemente caridade; não apenas um suporte que impedisse que estoirasse a irritação da carne, mas sim uma energia de amor que, imprimindo o seu caráter sobre todos os caminhos dos Cristãos, uns para com os outros, pusesse praticamente de lado a ação da carne e tomasse manifestas a presença e a ação divinas.

Ora, este amor cobre urna multidão de pecados. Pedro não fala aqui de um perdão final, mas do conhecimento atual que Deus toma das coisas, das Suas relações atuais em governo com o Seu povo, porque nós temos relações atuais com Deus. Se a Igreja está em desacordo, se há pouco amor, se as relações entre os Cristãos se não mantém senão com corações frios e acanhadamente, o mal que existe, os erros mútuos subsistem perante Deus; mas se há o amor que não comete faltas, nem delas se vinga, antes as perdoa e não encontra nelas senão uma ocasião de se exercitar, então é sobre o amor - e não sobre o mal- que o olhar de Deus repousa. Se houver mesmo delitos - pecados - o amor ocupa-se deles; o ofensor é reconduzido e restaurado pela caridade da assembléia. Os pecados são retirados de diante dos olhos de Deus, são cobertos. É uma citação de Provérbios 10: 12: "O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões". Temos o direito de perdoar - de lavar os pés do nosso irmão (comparar Tiago 5:15 e 1 João 5:16). Não só perdoamos, mas também o amor mantém a assembléia perante Deus de harmonia com a Sua própria natureza, de sorte que Ele pode abençoá-la.

Os Cristãos devem exercer a hospitalidade uns para com os outros com toda a liberdade. Este exercício da hospitalidade é a expressão do verdadeiro amor e contribui muito para o manter. Os Cristãos não devem ser estranhos uns para com os outros.

Em seguida, após o exercício da graça, vêm os dons. Tudo vem de Deus. Segundo o dom que cada um tinha recebido, devia servir, nesse dom, como despenseiro da multiforme graça de Deus. É Deus quem dá: o Cristão é servo e responsável como despenseiro da parte de Deus. Ele deve atribuir tudo a Deus, diretamente a Deus. Se fala, deve fazê-lo como oráculo de Deus, isto é, como falando da parte de Deus e não do seu próprio íntimo; se serve nas coisas temporais, deve fazê-lo com a força e a capacidade que vêm de Deus, a fim de que, quer fale quer sirva, Deus seja glorificado em todas as coisas por Jesus Cristo. A Ele - acrescenta Pedro ­pertence a glória e o poder para todo o sempre. Amém.

Após estas exortações, Pedro volta aos sofrimentos pelo nome de Cristo. Os Cristãos não deviam considerar as ardentes perseguições que vinham sobre eles para os provar, como se fosse coisa estranha que lhes acontecesse. Pelo contrário, eles estavam unidos a um Cristo sofredor e rejeitado; participavam assim dos Seus sofrimentos e deviam alegrar-se por esse fato. Cristo ia voltar em breve e esses sofrimentos por amor do Seu Nome transformar-se-iam em suprema alegria quando a Sua glória fosse revelada. Deviam, pois, regozijar-se por participarem dos sofrimentos de Cristo, para serem cheios de uma abundante alegria, aquando da revelação da Sua glória. Se, pelo Nome de Cristo, estavam no opróbrio, eles eram bem-aventurados. O Espírito de Deus repousava sobre eles. Era o Nome de Cristo que trazia o opróbrio sobre eles. Cristo estava na glória, junto de Deus. O Espírito que vinha dessa glória e desse Deus enchia-os de alegria ao suportarem o opróbrio. Era Cristo que era blasfemado - Cristo que estava glorificado - blasfemado pelos inimigos do Evangelho, enquanto que os Cristãos tinham a alegria de O glorificar. Note-se que, nesta passagem, é pelo próprio Cristo (tal como Ele disse) que o fiel sofre; e é por isso que o apóstolo fala de glória e de alegria aquando da aparição de Jesus Cristo, ao passo que não faz menção disso no capítulo 2:20 e 3: 17 (comparar Mateus 5: 10-12).

Portanto, o Cristão não deve sofrer nunca como malfeitor; mas, se sofrer como Cristão, não deve envergonhar-se disso, devendo antes glorificar a Deus por esse sofrimento. O apóstolo volta em seguida ao governo de Deus, porque esses sofrimentos dos fiéis tinham também um outro caráter:

Para a pessoa que sofria, isso era uma glória! Participava dos sofrimentos de Cristo, e o Espírito de glória e de Deus repousava sobre ela - e tudo isto se transformaria em abundante alegria, quando a glória fosse revelada. Mas Deus não tinha prazer em deixar sofrer o Seu povo. Permitia-o; e se Cristo teve de sofrer por nós, sem que, não tendo conhecido o pecado, disso tivesse necessidade para Si próprio, o povo de Deus tem muitas vezes necessidade de ser exercitado por meio do sofrimento, por sua própria conta. E, por vezes, Deus serve-Se, para isso, dos malfeitores, inimigos do Nome de Cristo. O Livro de Jó explica isto, independentemente de toda a dispensação. Mas, sob cada forma dos Seus caminhos, Deus exerce os Seus Juízos segundo a ordem que estabeleceu. Assim fez nas Suas relações com Israel, e assim faz com a Igreja. A Igreja tem a sua porção celestial; mas, se ela se prende à Terra, Deus permite ao Inimigo que a atormente. É possível que a pessoa que sofre esteja plena de fé e de amor, dedicada ao Senhor; mas, durante a perseguição, o coração sente que o mundo não constitui o seu descanso, que é necessário que ele tenha a sua porção noutro lugar e a sua força algures. Nós não somos do mundo que nos persegue. Se o fiel servo de Deus é cortado do mundo pela perseguição, a fé é fortificada, porque Deus está nesse fato; e aqueles do meio dos quais ele é suprimido sofrem e sentem que a mão de Deus interveio. Os Seus caminhos revestem a forma de Julgamento; sempre em amor perfeito, mas em disciplina.

Deus julga tudo segundo a Sua natureza. Ele quer que tudo esteja de acordo com a Sua natureza. Nenhum homem justo e honrado quereria ter os malfeitores junto' de si e sempre na sua frente. Também Deus, certamente, o não quereria. E é naquele que está mais perto de Si que Ele quer, acima de tudo, que todas as coisas respondam à Sua natureza e à Sua santidade - a tudo o que Ele é. Eu quereria que, à minha volta, tudo fosse suficientemente limpo para me não desonrar; mas, dentro da minha própria casa, exijo uma limpeza tal como pessoalmente a desejo. Assim, é necessário que o Juízo comece pela Casa de Deus. O apóstolo faz aqui alusão a Ezequiel 9:6. É um princípio solene. Nenhuma graça, nenhum privilégio muda a natureza de Deus; e é preciso que tudo seja conforme a essa natureza, ou então que seja, ao fim, banido da Sua presença. A graça pode tomar-nos à natureza de Deus, e é o que ela faz. A graça dá-nos a natureza divina, de sorte que há em nós um princípio de conformidade absoluta com Deus.

Mas, quanto à conformidade prática em pensamento e em ato, é preciso que o coração e a consciência sejam exercitados, a fim de que a inteligência do coração, as aspirações e os desejos habituais da vontade sejam formados segundo a revelação de Deus, e dirigidos continuamente para Ele.

Ora, se esta conformidade falta, de modo tal que a sua ausência seja prejudicial ao testemunho de Deus, Deus, que julga o Seu povo e que julgará o mal por toda a parte onde ele se encontrar, intervém, pelos castigos que inflige. O Juízo começa pela Casa de Deus. Os justos são salvos dificilmente. Não se trata aqui, evidentemente, da redenção, nem da justificação, nem da comunicação da vida; aqueles a quem Pedro se dirige possuem essas coisas. Para o apóstolo, a "salvação" é não só o gozo atual da salvação da alma, mas a plena libertação dos fiéis, que terá lugar aquando da vinda de Cristo em glória. Tem em vista todas as tentações, todas as provações, todos os perigos pelos quais o Cristão passa ao atingir o fim da sua carreira. É, na verdade, preciso todo o poder de Deus, dirigido pela sabedoria divina, guiando e sustento a fé, para fazer passar o Cristão são e salvo através do deserto onde Satanás põe em ação todos os recursos da sua destreza para o fazer perecer. O poder de Deus o cumprirá; mas, do ponto de vista humano, as dificuldades são quase insuperáveis. Ora, se os justos­ segundo os caminhos de Deus, que deve manter o Seu JuíZ4 conforme aos princípios do bem e do mal no Seu governo, e que não quer desmentir-Se de maneira nenhuma ao atuar para com o Inimigo das nossas almas - se os justos eram salvos dificilmente, que viria a ser do pecador e do ímpio? Não havia meio de escapar a essas dificuldades, senão juntando-se a eles. Quando se sofria como Cristão, não havia senão uma coisa a fazer:

Entregarmo-nos Àquele que velava pele Juízo que executava.

Porque, uma vez que se tratava da Sua mão, sofria-se de acordo com a Sua vontade. Cristo fez assim.

Note-se, aqui, que não se trata só do governo de Deus, mas que há também a expressão: "Como ao fiel Criador". O Espírito de Deus move-Se aqui nesta esfera. É a relação de Deus com este mundo, e a alma conhece-O como sendo Aquele que a criou e que não abandona as obras das Suas mãos. Estamos no campo judaico:

Deus, conhecido nas Suas relações com a primeira Criação. A confiança nEle é fundada sobre Cristo, mas Deus é conhecido nos Seus caminhos para com este mundo e para conosco na nossa peregrinação aqui, onde Ele governa e julga os Cristãos, como há de julgar todo o mundo.

 

Capítulo 5

O apóstolo volta a alguns pormenores cristãos. Exorta os presbíteros, ele, que também é presbítero; porque parece que, entre os Judeus, este título era antes característico que oficial (note-se o verso 5); exorta-os a apascentar o rebanho de Deus. O apóstolo designa-se como um que tinha sido testemunha dos sofrimentos de Cristo e que devia ter parte na glória que será revelada. Era a função dos doze:

Serem testemunhas da vida de Cristo (João 15), como a do Espírito Santo era a de prestar testemunho à Sua glória celestial. Pedro coloca-se nos dois extremos da história do Senhor e deixa o j intervalo privado de tudo, exceto da esperança e da peregrinação em direção a um alvo. Ele tinha visto os sofrimentos de Cristo; devia participar da Sua glória, quando fosse revelado.

É um Cristo que Se coloca a Si mesmo em relação com os Judeus, mas agora somente conhecido pela fé. Durante a Sua vida na Terra, esteve entre os Judeus, embora ali tivesse sofrido e ali tivesse sido rejeitado.

Quando Ele aparecer, estará de novo em relação com a Terra e com esse povo. Paulo fala de outro modo, embora confirmando estas verdades. Ele não conheceu o Senhor senão após a Sua exaltação. Não é uma testemunha dos Seus sofrimentos, mas procura o poder da Sua ressurreição e a comunhão dos Seus sofrimentos. O seu coração está ligado a Cristo enquanto Cristo está no Céu, como estando unido a Ele, lá em cima. E embora deseje a aparição do Senhor para o restabelecimento de todas as coisas de que os profetas tinham falado, regozija-se por saber que irá ao Seu encontro com alegria e voltará com Ele, quando for revelado do Céu.

Os presbíteros deviam apascentar o rebanho de Deus com prontidão, e não como por constrangimento, nem por torpe ganância, nem como tendo domínio sobre uma herança que lhes pertencesse, mas como modelos do rebanho. Deviam prodigalizar cuidados especiais ao rebanho, por amor de Cristo, Sumo Pastor, em vista do bem das almas. Aliás, era o rebanho de Deus que eles eram chamados a apascentar. Que pensamento tão solene e tão doce! É impossível que um homem tenha jamais a idéia de falar do seu rebanho, se compreendeu que não é o seu rebanho, mas sim o rebanho de Deus, que Deus nos permite apascentar.

Poderemos notar que o coração do bem-aventurado apóstolo está lá onde o Senhor o tinha colocado. "Apascenta as minhas ovelhas"; tal tinha sido a expressão da perfeita graça do Senhor para com Pedro, quando o levava à humilhante, mas salutar confissão que era preciso o olho de Deus para Poder ver que o Seu fraco discípulo o amava. No momento em que o convencia do seu nada absoluto, o Senhor confiava-lhe o que tinha de mais querido neste mundo. Vemos aqui que, do mesmo modo, é essa a preocupação do apóstolo, o desejo do seu coração, que os presbíteros apascentam o rebanho. Aqui, como noutro lugar, Pedro não vai além da aparição do Senhor. Será nessa altura que os caminhos de Deus em governo - de que os Judeus eram o centro terrestre - serão plenamente manifestados. Então, a coroa de glória será apresentada àquele que tiver sido fiel e que tiver satisfeito o coração do Sumo Pastor.

Os jovens deviam submeter­-se aos anciãos, e todos estarem sujeitos uns aos outros. Todos deviam revestir-se de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. São ainda os princípios do Seu governo. Portanto, sob a Sua mão, eles deviam humilhar-se; depois seriam exaltados, na altura própria. Proceder assim era estar de acordo com Deus. Ele sabia o que era necessário. Ele, que os amava, os elevaria em tempo conveniente. Preocupava-se com eles, por isso deviam descansar no Senhor, remetendo-Lhe todos os seus cuidados.

Por outro lado, deviam ser sóbrios e vigilantes, porque o adversário procurava devorá-los. Aqui - sejam quais forem as suas astúcias, e embora ele possa armar ciladas aos Cristãos - é sob o caráter de um leão rugindo, que excita abertas perseguições, que o apóstolo o apresenta. Devíamos resistir-lhe, permanecendo firmes na fé. Por toda a parte se encontravam as mesmas aflições. Todavia, o Deus de toda a graça é a confiança dos Cristãos. Ele chamou-nos a participar na Sua glória eterna. O que o apóstolo lhes deseja é que, após terem sofrido por algum tempo, o Deus de graça tome aqueles a quem ele escrevia, perfeitos, completos, confirmando-os, fortificando-os, e edificando os seus corações sobre o fundamento de uma segurança inabalável. E a Ele ­acrescenta Pedro - seja a glória e o poderio para todo o sempre.

Vemos que os Cristãos, aos quais Pedro escrevia, sofriam, e que. o apóstolo explicava esses sofrimentos segundo os princípios do governo divino, dizendo respeito especialmente às relações dos Cristãos com Deus como sendo a Sua Casa, e desejando que esses sofrimentos fossem sofrimentos por causa da justiça, ou sofrimentos pelo Nome do Senhor. Seriam sofrimentos temporários. A esperança do Cristão estava noutro lugar! A paciência cristã era agradável a Deus. Sofrer pelo Nome de Cristo era a glória deles. De resto, Deus julgava a Sua Casa e velava pelo Seu povo.

 

Volume 40