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EPÍSTOLA AOS HEBREUS – CAPÍTULO 12
EPÍSTOLA AOS HEBREUS – CAPÍTULO 12

“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS”
tradução de “Synopsis of the Books of the Bíble” – John Nelson Darby

EPÍSTOLA AOS HEBREUS – CAPÍTULO 12

A Epístola aos Cristãos Hebreus passa agora às exortações práticas que decorrem do seu ensino, tendo em conta os perigos particulares; ensino próprio, no seu todo, para inspirar­-lhe coragem. Rodeados de uma grande nuvem de testemunhas, tais como as do capítulo 11, todas declarando a vantagem de uma vida de fé em promessa ainda não realizadas, deviam sentir-se inspirados a seguir-lhes o exemplo, correndo com paciência a carreira que lhes estava preparada, desviando os olhos de todas as dificuldades(1) para os fixar em Jesus, que percorreu toda a carreira da fé sustido pela alegria que se Lhe patenteava e que, tendo chegado ao fim, Se assentou em glória à direita de Deus.

Esta passagem apresenta o Senhor, não como Aquele que dá a fé, mas como Aquele que com ela cumpriu a Sua missão. Outros tinham percorrido uma parte do caminho, tinham superado algumas dificuldades; a obediência e a perseverança do Senhor foram submetidas a todas as provas de que a natureza humana é susceptível: os homens, o Inimigo, o abandono de Deus, tudo, tudo era contra Ele! Os Seus discípulos fogem quando Ele está em perigo; o Seu amigo íntimo traiu-O! Espera que alguém tenha compaixão, mas não encontra ninguém! Os pais, cujos nomes são recordados no capítulo precedente, confiaram em Deus e foram libertados, mas para Ele não há libertação! Ele é um verme, e não um homem; a sua garganta está seca de tanto gritar - o Seu amor por nós, a Sua obediência a Seu pai sobrepujam tudo, e ele alcança a vitória! Submetendo­-Se, assenta-Se numa glória tão elevada quão grandes foram a Sua humilhação e a Sua obediência - a única recompensa justa, devida ao fato de Ele ter glorificado perfeitamente a Deus, onde o pecado O tinha desonrado. A alegria e as recompensas que nos são propostas não são nunca os motivos da marcha da fé. Bem sabemos que não o foram para Cristo e também o não serão para nós. São, sim, uma forma de encorajamento dos que nela andam.

1 - Isto não é ser insensível ás dificuldades; mas é, quando as sentimos, desviar o olhar delas e lançá- Ios sobre Cristo. É este o segredo da fé... “Não vos inquieteis" teria sido uma exortação inútil, e se não tivesse havido nada a inquietar. Abraão não considerava o seu corpo já amortecido ...

Portanto, tendo Jesus alcançado a glória que U1e era devida, toma-Se o nosso exemplo nos sofrimentos que atravessou para ali chegar; é por isso que nós não devemos perder a coragem nem ceder ao cansaço. Ainda não perdemos a vida, como Lhe sucedeu a Ele, para glorificarmos a Deus O servimos. E digna de ser notada a maneira como o apóstolo exorta os Hebreus crentes a desembaraçarem-se de todo o entrave, seja pecado seja simples dificuldade, como se eles tivessem mais nada a fazer senão rejeitá­-los, como um peso inútil. e, de fato, quando olhamos para Jesus, verificamos que nada é mais fácil; porém, quando se não olha para Ele, nada de mais impossível! ...

Há duas coisas a rejeitar: todo o fardo e todo o pecado que nos enlaça os pés (porque se trata aqui daquele que corre na liça). A carne, o coração humano, ocupa­-se dos cuidados e das dificuldades; e quanto mais pensarmos nisso, mais carregados ficamos. O coração encontra-se seduzido pelos objetos das cobiças; não se desenlaça deles. A luta é travada com um coração que ama a coisa contra a qual lutamos; não conseguimos desviar o pensamento dessa coisa. Mas, olhando para Jesus, o novo homem é ativo. Há um novo objeto que nos descarrega e nos desliga de qualquer outro objeto por uma nova afeição, que tem o seu lugar numa nova natureza; e, no próprio Senhor Jesus, para o qual olhamos, há uma positiva que nos liberta.

É rejeitando tudo, de uma maneira absoluta, que facilmente nos desembaraçamos de todos os fardos; olhando para Aquele que enche o coração de outros objetos e o ocupa noutro lugar, com um outro objeto, operando sobre uma nova natureza, objeto que possui um poder positivo, absorvendo o coração e excluindo todos os objetos que apenas atuassem sobre a velha natureza. É fácil atirar para longe o que pesa como um fardo. Julgamos todas as coisas segundo a sua relação com o fim que queremos atingir. Se eu correr na liça, e os meus pensamentos estiverem todos concentrados no premio, de boa vontade atiro para longe de mim um saco cheio de ouro, se esse ouro constitui um fardo impeditivo. É preciso olhar para Jesus. Nele, e somente Nele, deitamos, e sem dissimulação, para longe de nós todos os entraves; não se combate o pecado por meio da carne.

Mas há uma outra espécie de provações que vêm de fora; essas não as rejeitamos, pois é necessário sofrê-las. Cristo, como vimos, passou por essas provações. Nós não temos, como Ele, resistido até - antes vertermos o nosso sangue até à última gota do que faltarmos à fidelidade e à obediência. Ora, Deus atua nessas provações como um Pai: repreende-nos. Como para Jó, talvez eles venham do Inimigo, mas a mão e a sabedoria de Deus ali estão: Ele repreende aqueles que ama. Não devemos nem desprezar essas repreensões, nem estar desencorajados quando elas nos sobrevêm. Não devemos desprezá-las, porque Ele não repreende sem motivo nem sem causa; e depois, é Deus quem o faz. Não devemos perder a coragem, porque Ele repreende sempre em amor.

Se perdermos a vida por causa do testemunho do Senhor e resistindo ao pecado, o nosso combate está terminado - e isso não é uma repreensão, mas sim a glória de sofrermos com Cristo. A morte, neste caso, é a negação do pecado. Aquele que está morto, está livre do pecado; aquele que sofreu na carne acabou com o pecado. Mas, até lá, a carne, no sentido prático (porque nós temos o direito de nos considerarmos mortos) não está ainda destruída; e Deus sabe reunir a manifestação da fidelidade do novo homem que sofre pelo Senhor, com a disciplina pela qual a carne é mortificada. O espinho de Paulo, por exemplo, reunia essas duas coisas: Sofria no exercício do seu ministério, porque esse espinho era algo que tendia a torná-lo desprezível quando pregava (e ele o suportava por amor do Senhor); mas, ao mesmo tempo, esse espinho mantinha a sua carne em situação permanente embaraçosa.

Verso 9. Ora, nós submetemo­-nos aos nossos pais segundo a carne, que nos disciplinam à sua vontade; quanto mais não devemos nós sujeitar-nos ao Pai dos espíritos (2) que quer tornar­-nos participantes da Sua própria santidade! Note-se aqui a graça à qual é feito apelo. Temos visto o quanto os Hebreus tinham necessidades de advertências, e a tendência que havia neles para enfraquecerem na vida da fé. Ora, o meio de os impedir de falharem não é, certamente, poupar-lhes advertências, mas sim colocar as suas almas em plena relação com a graça. Isto só pode dar força e coragem pela confiança em Deus: Não fomos ao Sinai, à lei que exige, mas a Sião, onde Deus manifestou o Seu poder, restabelecendo Israel pela Sua graça na pessoa do rei eleito, quanto à responsabilidade do povo, tudo estava inteiramente perdido, toda a relação com Deus era impossível nessa base, porque a arca estava perdida. Já não havia propriação, já não havia trono de Deus no meio do povo; icabode (3) estava escrito sobre Israel.

2 - “Pai dos espíritos” está aqui simplesmente em contraste com os “pais da nossa carne”.

3 - Icabode (1 Samuel 4:21): “Foi-se a glória de Israel”.

Assim, falando da santidade, esta Epístola mostra· que Deus está ativo em amor para com os fiéis, mesmo nos seus sofrimentos. É Ele que não só lhes deu livre acesso à Sua presença pelo sangue e pela presença de Cristo perante Si por eles, mas também Se ocupa continuamente de todos os pormenores da sua vida. A Sua mão está em todas as suas provações. Pensa constantemente neles, a fim de que eles participem da Sua santidade. Não se trata aqui de exigir a santidade da nossa parte, por muito necessária que fosse; trata-se, sim de nos fazer parte da Sua própria santidade. Que graça imensa e perfeita! Que meio Ele emprega! É o meio de gozarmos perfeitamente do Seu amor.

Verso 11. Deus não espera que esses exercícios nos sejam agradáveis no momento em que possamos por eles não produzirem o seu efeito, se o fossem. Mas depois, uma vez quebrantada a nossa vontade, eles produzirão os pacíficos frutos da Justiça. O orgulho dos homens é abatido, quando forçado a submeter-se ao que é contrário à sua vontade. Deus também toma um maior - sempre o mais precioso - lugar nos seus pensamentos e na sua vida.

Verso 12. Sobre o princípio da graça, os Hebreus são pois, exortados a encorajarem-se mutuamente no caminho da fé, e a velar para que o pecado não germine no meio deles, quer algum de entre eles cedendo às cobiças da carne, quer renunciando aos privilégios cristões por algo deste mundo; deviam andar com uma coragem tal que a evidência da sua felicidade e da sua alegria (a qual é sempre um testemunho claro e que alcança a vitória sobre o Inimigo) fizesse sentir aos fracos que ali estava também assegurada a sua própria parte - e assim ser ­lhes-iam administradas a força e a cura, e não o desencorajamento. É preciso tomar fácil às almas fracas e coxas o caminho da fé quanto às suas circunstâncias; é preciso construir para eles um caminho bem trilhado. Elas sentirão então, mais do que as almas fortes, o quanto um tal caminho é bom e precioso! ...

O motivo que nos é dado para que andemos assim, já o dissemos, é a graça; mas ela toma aqui uma forma que requer ser considerada um pouco mais em pormenor. é­-nos dito que não estivemos no Sinal Ali, os terrores da majestade de Deus mantinham o homem a distância; ninguém devia aproximar-se d'Ele. O próprio Moisés temia e tremia ante a presença de Jeová. Não é ali que o Cristão é levado, porém, em contraste com tais relações com Deus, todo o estado milenário é desenvolvido em todas as suas partes, - mas essas partes são conhecidas, por agora, apenas em esperança. Nós pertencemos a esta Nova Ordem, mas, como é evidente, esse estado de coisas não está ainda estabelecido, a saber: Sião; a Jerusalém celeste; , os anjos; a Igreja universal; a Igreja dos primogênitos, cujos nomes estão inscritos nos céus; Deus julga todos; os espíritos dos justos consumados; Jesus, Mediador de uma Nova Aliança; e finalmente o sangue da aspersão, que fala melhor do que Abel.

Falamos de Sião como princípio; é a intervenção da graça soberana (no Rei) após a ruína e . no meio da ruína de Israel, restabelecendo o povo segundo os desígnios de Deus em glória, e . as relações desse povo com o próprio Deus. É o descanso de Deus sobre a Terra, sede do poder real do Messias. Mas, nós bem o sabemos, a extensão da Terra está longe de formar os limites da herança do Senhor. Sião neste mundo é o descanso do Eterno; não é a cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, a capital celeste, por assim dizer, do Seu reino, a cidade que tem fundamentos, de que Ele mesmo é o fundador e o arquiteto.

Tendo nomeado a Sião deste . mundo, o autor passa naturalmente à Jerusalém celestial; mas isto introduz-nos no Céu, e ele encontra-se com todo o povo de Deus, no meio de uma

multidão de anjos, a grande Assembléia universal(4) do mundo invisível. No entanto aqui há um objeto muito particular para os seus olhos, nesta cena maravilhosa e celestial: É a Assembléia dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus. Eles não nasceram no Céu, não são indígenas como os anjos guardados de Deus sem queda; não se trata apenas de eles chegarem ao Céu; eles são os gloriosos herdeiros e primogênitos de Deus, de harmonia com os Seus eternos desígnios, segundo os quais eles estão registrados nos céus. A Assembléia dos objetos da graça, agora chamada em Cristo, pertencem ao Céu por graça; não são os objetos das promessas, que, não tendo recebido o efeito das promessas sobre a Terra, não deixam de delas gozar no Céu; não têm de esperar nenhuma outra pátria ou cidadania senão o Céu; as promessas não lhes são dirigidas; não têm nenhum lugar sobre a Terra; o Céu está-lhes preparado pelo próprio Deus; os seus nomes estão inscritos no Céu por Ele. Esta posição dos primogênitos é a posição mais elevada nos céus, acima dos caminhos de Deus quanto ao Seu governo, quanto às promessas e à lei sobre a Terra.

Isto conduz o espectador desta glória ao próprio Deus. Mas quando chegamos ao ponto mais elevado, ao que há de mais excelente na graça, Deus apresenta-Se-nos sob um outro caráter, a saber o caráter de Juiz de todos, como que olhando de cima para julgar tudo o que há em baixo. Nós somos assim introduzidos ante uma outra categoria desses bem-aventurados habitantes da glória celeste ­aqueles que o Justo Juiz reconheceu como Seus antes de a Assembléia celeste ser revelada, os espíritos dos justos consumados. Tinham acabado a sua carreira, tinham vencido no combate, já não esperavam senão a glória. Tinham estado em relação com os caminhos de Deus sobre a Terra; mas, fiéis antes de o tempo ter chegado para a abençoar, eles tinham a sua porção e o seu descanso no Céu. No entanto, Deus queria abençoar a Terra, mas não podia fazê-lo segundo a responsabilidade do homem. Mesmo o Seu povo não era senão como a erva. Deus queria, pois, estabelecer uma nova aliança com Israel, aliança de perdão e de harmonia com a qual Ele escrevia a lei nos corações do Seu povo. O Mediador desta Nova Aliança já tinha aparecido, tinha feito tudo o que era necessário para estabelecer. Os Santos de entre os Hebreus tinham vindo ao Mediador da Nova Aliança; assim a bênção estava preparada para a Terra, e estava-lhe assegurada.

4 -  A palavra traduzida aqui" Assembléia" empregava-se para a assembléia de todos os Estados da Grécia; para os "primogénitos" a palavra é a mesma que para a assembléia dos cidadãos de um Estado particular.

Enfim, o sangue de Jesus tinha sido derramado sobre a Terra, tal como o de Abel o fora por Caim; mas, em lugar de clamar desde a Terra, pedindo vingança, e de tomar um Caim vagabundo e fugitivo sobre a Terra impressionante tipo do Judeu culpado da morte de Jesus, é a graça que fala - e o sangue derramado clama, sim, mas para obter o perdão e a paz daqueles que O feriram de morte.

Notar-se-á que, falando de diversas partes da bênção milenária, a Palavra de Deus dá aqui tudo segundo o estado atual das coisas, antes da chegada desse período de bênção da parte de Deus. Nós entramos nesse estado de bênção quanto às nossas relações, mas não nos é falado aqui senão dos espíritos dos justos do Antigo Testamento e do Mediador da Nova Aliança. A própria Aliança ainda não está estabelecida. O sangue clama, mas a resposta da bênção terres­tre, ainda não chegou. E isto compreende-se: O que nos ê dito exprime o estado de coisas tal como ele existe, deitando mesmo uma grande luz sobre a posição dos Cristãos Hebreus e sobre a doutrina da Epístola. Trata-se, sobretudo para eles, de não se desviarem d' Aquele que falava do Céu, pois é com Ele que têm de se haver. Nós vimo-los ligados a tudo o que tinha procedido o testemunho do Senhor sobre a Terra, mas, de fato, no tempo presente, eles têm de se haver com o próprio Senhor, falando do Céu. Outrora o Eterno tinha-lhes falado sobre a Terra. A sua voz, então, abalava a Terra. Agora, falando com a autoridade da graça e estando no Céu, Ele anunciava a dissolução de tudo isso sobre o que a carne poderia apoiar-se, ou sobre o que a criatura poderia fazer assentar a sua esperança.

Tudo o que pode ser abalado será desfeito. Quanto mais fatal não é desviarmo-nos d' Aquele que fala agora, do que era desviarem­-se dos próprios mandamentos do Sinai! Este abalamento de todas as coisas (seja aqui, seja na  passagem análoga em 2ª Pedro) vai, evidentemente, mais j longe do que o Judaísmo, mas aplica-se-lhe de uma maneira muito particular. O judaísmo era o sistema e o quadro das relações de Deus com os homens sobre a Terra, segundo o princípio da sua responsabilidade. Tudo isso pertencia à Primeira Criação, mas as suas fontes estavam contaminadas. O céu, sede do poder do Inimigo, pervertia e corrompia; o coração do homem, sobre a Terra, estava corrompido e rebelado. Portanto, Deus vai agora abalar tudo e tudo modificar. E o resultado será uma nova Criação, na qual habitará a Justiça. Enquanto espera, formam-se as primícias desta nova Criação: Deus forma no Cristianismo a parte celeste desse reino inabalável; e o Judaísmo, centro do sistema terrestre da responsabilidade humana, desaparece. O escritor inspirado anuncia, por conseguinte, o abalamento de tudo; tudo o que existe, como Criação atual, será posto de lado. Quanto ao fato atual, ele diz somente que nós recebemos "um reino inabalá­veI", e chama-nos a servirmos a Deus com verdadeira piedade, visto que o nosso Deus é um fogo consumidor - não Deus fora de Cristo, como alguns dizem, mas sim o nosso Deus. A expressão "fogo consumidor" pinta o Seu caráter em santa majestade e em justo julgamento do mal.

 

"Estudos sobre a palavra de Deus” - Hebreus 13