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EPÍSTOLA AOS HEBREUS - CAPÍTULO 10
EPÍSTOLA AOS HEBREUS - CAPÍTULO 10

“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS”
Tradução de “Synopsis of the Books of the Bible- John Nelson Darby

 

EPÍSTOLA AOS HEBREUS – CAPÍTULO 10 

O capítulo 10 é o desenvolvimento e a aplicação do fato de Cristo Se ter oferecido uma vez por todas. O autor resume nele a sua doutrina sobre este ponto, e aplica-a às almas, confirmando-a pelas Escrituras e por considerações evidentes para toda a alma instruída.

A lei, com os seus sacrifícios, não conduzia os adoradores à perfeição, porque, se estes tivessem sido aperfeiçoados, os sacrifícios não seriam repetidos. Se eram ainda oferecidos, é porque os adoradores não eram perfeitos, era, pelo contrário, um memorial dos pecados. O sacrifício repetido recordava ao povo que o pecado estava ainda ali, e que estava perante Deus. A lei, com efeito, era bem a sombra das coisas futuras, mas não a própria imagem dessas coisas. Havia sacrifícios, mas sacrifícios repetidos, em lugar de um só sacrifício, eficaz para sempre; havia um sumo sacerdote, mas um sumo sacerdote mortal, o que implicava um sacerdócio transmissível; um sumo sacerdote que entrava num lugar santíssimo, mas somente uma vez por ano; havia o véu que escondia Deus, ficando sempre lá, e um sumo sacerdote que não podia permanecer na Sua presença, porque a obra não era perfeita. Havia, pois, elementos que indicavam claramente as partes constitutivas, se me posso exprimir assim, do sacerdócio dos bens futuros, mas o estado dos adoradores era, um caso, totalmente o oposto do que era no outro. No primeiro caso, cada ato mostrava que a obra de reconciliação não era perfeita; no segundo caso, a posição do Sumo Sacerdote e a dos adoradores é o testemunho de que esta obra foi realizada, e que os adoradores são aperfeiçoados para sempre na presença de Deus.

No capítulo 10, este princípio é aplicado ao sacrifício. A sua repetição demostrava que o pecado ainda lá estava; e o fato de o sacrifício de Cristo não ser oferecido senão uma vez era a demonstração da sua eficácia eterna. Se os sacrifícios judaicos tivessem tornado os adoradores realmente perfeitos perante Deus, esses sacrifícios teriam cessado de ser oferecidos. Embora o princípio seja geral, o apóstolo fala dos sacrifícios que eram ofere­cidos todos os anos no dia das propiciações; porque, aperfei­çoados de uma maneira perma­nente, pela eficácia do sacrifício, os adoradores já não teriam nenhuma consciência de pecados, e não teriam o pensamento de renovar o sacrifício.

Note-se aqui, porque é muito importante, que a consciência é purificada, sendo expiados os pe­cados e aproximando-se o ado­rador em virtude do sacrifício de Cristo. O sentido do serviço judaico era que a culpabilidade não era tirada; o sentido do serviço cristão é precisamente o contrário. Quanto ao primeiro, por muito precioso que seja o tipo, a razão é evidente: o sangue dos touros e dos bodes não podia tirar o pecado. Por isso esses sacrifícios foram abolidos, e uma obra foi realizada que, sendo embora um sacrifício, tem outro caráter. É uma obra que exclui qualquer outra e toda a repetição, porque se trata da dedicação do próprio filho de Deus, para cumprir a vontade de Deus e realizar aquilo para que tinha sido consagrado, ato impossível de repetir, porque não se pode cumprir toda a vontade de Deus duas vezes. Se isso fosse possível, seria um testemunho da insuficiência do primeiro ato e, por conseguinte, da insuficiência de ambos.

Eis o que o Filho de Deus diz nesta passagem tão solene (v. 5 a 9), onde nós somos informados, segundo a graça de Deus, do que se passou entre Deus o Pai e Ele próprio, quando o Filho empreendeu o cumprimento da vontade de Deus - o que Ele disse, e quais eram os desígnios eternos de Deus, que Ele cumpriu. Ele toma a posição de submissão e de obediência, para cumprir a vontade de um Outro. Deus já não queira sacrifícios oferecidos sob a lei, cujos quatro gêneros são assinalados aqui; não tinha nenhum prazer neles. Em seu lugar, tinha preparado um corpo para o Seu Filho - verdade importante, imensa, porque a verdadeira posição do homem é a da obediência. Portanto, tomando este lugar de obediência, o Filho de Deus coloca-Se numa posição em que pode obedecer perfeita­mente, e, de fato, Ele empreende fazer toda a vontade de Deus, qualquer que ela seja - vontade sempre boa, agradável e perfeita.

O Salmo, no texto hebraico, diz: "Tu me escavaste(1) os ouvidos", o que os Setenta traduziram por: "Tu me formaste um corpo", e esta palavra uma vez que ela dá o verdadeiro sentido, o Espírito Santo a emprega aqui; porque a palavra "ouvido" , assim empregada, tem sempre o sentido da recepção de mandamentos, e de obrigação de obedecer, ou de disposição para o fazer. "Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça" (Isaías 50:4); quer dizer que Ele me faz prestar atenção à Sua vontade, ser obediente aos Seus mandamentos. A orelha era furada ou pregada com uma sovela à porta, como sinal de que o Israelita estava ligado à casa como escravo para obedecer para sempre. Ora, tomando um corpo, o Senhor tomou a forma de servo (Filipenses 2: 7); teve "orelhas furadas", quer dizer, colocou-Se na posição em que deveria cumprir toda a vontade do Seu Senhor, fosse ele quem fosse. Mas é o próprio Senhor (2) que fala na passagem:

Tu, diz Ele, "tu me formaste um corpo".

Entrando mais em pormenores, Ele especifica os holocaustos e as oferendas pelo pecado, sacrifícios que tinham menos o caráter de comunhão que o de sacrifícios de prosperidade e de ganho, e eram, por conseguinte, de um maior alcance, mas Deus não tinha nisso prazer algum. Numa palavra, o serviço judaico era já então declarado, pelo Espírito, inaceitável perante Deus. Tudo isso devia cessar, pois não produzia fruto. Nenhuma oferenda, fazendo parte desse serviço, era agradável. Não, os planos de Deus desenvolvem-se, mas em primeiro lugar no coração do verbo, do Filho de Deus, que Se oferece a Si mesmo para cumprir a vontade de Deus. Então Ele diz: "Eis aqui venho ( no princípio do livro está escrito a respeito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade" (v.7) está Nada mais solene do que tirar assim o véu de sobre aquilo que se passa no Céu entre Deus e o Verbo que empreendeu fazer a Sua vontade. Note-se que, antes de estar na posição de obediência, Ele próprio Se oferece para fazer a vontade de Deus; isto é, como alguém que podia fazê-lo, de livre vontade e por infinito amor, Ele Se oferece para a glória de Deus. Empreende uma total obediência, empreende fazer tudo o que Deus quer. Faz o sacrifício de boa vontade, e faze-o livremente, como de Sua própria iniciativa, embora isso seja, na ocasião, a vontade do Pai. Era preciso ser Deus para o fazer, para empreender o cumprimento de tudo aquilo que Deus quisesse.

1) Não é a mesma palavra que "furar" ou perfurar em Êxodo 21, nem que "abrir" em Isaías 50. Um escavar significa preparar para a obediência, o outro significa ligar à obediência para sempre e sujeitar à obediência que é devida. A passagem de Êxodo 21 refere-se à verdade bendita que o Senhor, uma vez cumprindo o Seu serviço pessoal sobre a Terra, não quis abandonar nem a Sua Igreja nem o Seu povo. Ele é sempre Deus, mas também sempre Homem, sempre Homem humilhado, o Homem glorificado e reinante, o Homem dependente, embora na alegria da perfeição eterna.
2) O tema, como em toda a Epistola, é o Messias. No Salmo, é o Messias que fala, isto é, o Ungido neste mundo. Ele exprime a Sua paciência e a Sua fidelidade na posição que tinha tomado, dirigindo-Se ao Eterno com Seu Deus, e conta-nos como tinha tomado este lugar voluntariamen­te, segundo os eternos desígnios a respeito da Sua Pessoa. Porque a Pessoa não mudou, mas Cristo fala no Salmo segundo a posição de obediência que tomou, dizendo sempre mim e eu, ao falar daquilo que se passou antes da Sua encarnação.

Eis aqui o grande mistério dessa divina conversação, que fica sempre rodeada da sua solene majestade, embora nos seja comunicada para que nós o saibamos e precisávamos de o saber, porque é assim que compreendemos a graça infinita e a glória dessa obra. Antes de ser feito homem, no lugar em que só a divindade se conhece, e onde os desígnios e os pensamentos eternos se comunicam entre as Pessoas divinas, o Verbo, assim como Ele no-lo declarou em devido tempo pelo Espírito profético (tal sendo a vontade de Deus, contida no livro dos desígnios eternos) ­Ele, que podia fazê-lo, Se ofereceu livremente para cumprir essa vontade. Submetido a esse desígnio já determinado a Seu respeito, Ele Se oferece entretanto com perfeita liberdade para o cumprir. Oferecendo-Se, Ele submeteu-Se; todavia, e ao mesmo tempo, empreende fazer tudo o que Deus, como Deus queria. Mas também, ao empreender fazer a vontade de Deus, Ele a faz por via da obediência, da submissão e da dedicação; porque eu poderia empreender fazer a vontade de um outro como sendo livre e competente para a fazer, mas também porque eu queria essa coisa. Mas se eu digo: "Para fazer a tua vontade", trata-se de uma submissão absoluta e completa. Foi o que o Senhor, o Verbo, fez. E Ele o fez também, declarando que vinha para o fazer. Tomava uma posição de obediência, aceitando o corpo formado para Ele; vinha para fazer a vontade de Deus.

Isto, que acabamos de dizer, encontra-se continuamente manifestado na vida de Jesus, na Terra. A divindade transparece através da posição que Ele tinha tomado num corpo humano, porque Ele era Deus necessariamente no próprio ato da Sua humilhação, e só Deus teria podido empreender a obra que empreendeu, e nela Se encontrar; mas Ele era sempre, inteiramente, perfeitamente obediente e dependente de Deus. O que se revelava na sua existência sobre a Terra era a expressão do que se tinha cumprido nas moradas eternas, na Sua própria natureza, quer dizer (e é aquilo de que o Salmo 40 nos fala), aquilo que Ele exprime e que Ele foi neste mundo são a mesma coisa: uma, na realidade, no Céu, e a outra corporalmente sobre a Terra. O que foi neste mundo não era senão a expressão, a manifestação viva, real, corporal, dessas comunicações divinas que nos foram reveladas, e que eram a realidade da posição que Ele tomou. Ora, é muito importante ver estas coisas na livre oferenda de Si próprio, feita segundo a competência divina, e não somente quando elas são cumpridas na morte. Isto dá um caráter inteiramente diferente à Sua obra, no corpo, neste mundo.

Na realidade, depois do primeiro capítulo. O Espírito Santo apresenta sempre Cristo desta maneira; mas esta revelação do Salmo 40 era necessária para ex­plicar como Ele Se fez servo - o que o Messias realmente era. E, para nós, Ele abre uma vida imen­sa sobre os caminhos de Deus, vista cujo fundo, pela própria luz da revelação, nos mostra coisas tão divinas e tão gloriosas que baixamos a cabeça e nos curvamos ao pensamento de sermos admitidos, por assim dizer, a assistirmos a tais conversações, dada a majestade das Pessoas cujas relações íntimas e cujos atos nos são revelados. Aqui, não é a glória que nos deslumbra, mas, neste pobre mundo, não há nada a que sejamos tão estranhos como à intimidade daqueles que são, nos seus hábitos, muito superiores a nós. O que será, pois, quando se trata da intimidade de Deus? Bendito seja o Seu Nome! Que sublime graça esta que nos introduz tão perto de Deus, que se aproximou de nós na nossa fraqueza! Somos, pois, admitidos a conhecer esta preciosa verdade, que o Senhor Jesus empreendeu, de Sua livre vontade, o cumprimento de toda a vontade de Deus, e que quis mesmo tomar o corpo formado por Ele, a fim de cumprir a Sua vontade. Assim, o amor, a dedicação à glória de Deus e a maneira como Ele empreendeu obedecer, são plenamente postos em evidência. Esta obra, fruto dos eternos desígnios de Deus, destitui, em virtude da sua própria natureza, toda a representação provisória e encerra somente em si a condição de toda a revelação com Deus, e o meio pelo qual Ele Se glorifica(3). Portanto, o Verbo toma um corpo para Se oferecer em sacrifício.

Além da revelação desta dedicação do Verbo para cumprir a vontade de Deus, é-nos apresen­tado o efeito do Seu sacrifício segundo essa mesma vontade. Ele veio para fazer a vontade de Jeová; ora, é pela vontade d' Aquele que, segundo a Sua eterna sabedoria, formou um cor­po para o Seu Filho, que a fé compreende que aqueles que Ele chamou para Si, para a salvação, são separados para Deus, ou seja: são "santificados". É pela vontade de Deus que nós somos separados para Ele, não pela nossa vontade, e isto tem lugar por meio do sacri­fício oferecido a Deus - Jesus Cristo.

Notar-se-á que a Epístola não fala aqui da comunicação da vida nem de uma santificação prática, operada pelo Espírito Santo(4); é da Pessoa de Cristo assunto ao Céu e da eficácia da Sua obra que ela se ocupa. E isto é importante acerca da santificação, porque o emprego desta palavra mostra que a santificação é uma separação completa de um homem para Deus, como pertencendo-lhe, pejo preço da oferenda de Jesus, uma consagração a Ele por meio desta oferenda. Deus tomou de entre os homens os Judeus impuros e os separou, os consagrou a Si mesmo. De igual modo Ele consagrou a Si mesmo agora os chamados de entre este povo, e, graças a Deus, nós mesmos também, por meio da oferenda de Jesus.

Ora, há um outro elemento já assinalado desta oferenda, cujo alcance a Epístola aplica aqui aos crentes, a saber, que a oferenda está feita "uma vez por todas". Não admite nenhuma repetição. Se gozarmos do resultado desta oferenda, a nossa santificação é eterna na sua natureza; não falha, não se repete. Somos de Deus, de acordo com a sua eficácia, e para sempre. Assim, a nossa santificação, a nossa separação para Deus, quando se trata da obra pela qual ela é realizada, tem toda a firmeza da vontade de Deus e toda a graça que dela tem sido a fonte. Participa também, na sua natureza, na perfeição da própria obra pela qual é realizada e possui a duração e a força constante da eficácia desta obra. Mas o alcance desta oferenda não se limita a esta separação para Deus. O ponto já tratado compreende a nossa separação para o próprio Deus, pela oferenda perfeitamente eficaz de Cristo, cumprindo a Sua vontade; agora a posição que Cristo tomou, a seguir à Sua oferenda, é empregada para manifestar inteiramente o estado em que, como conseqüência desta oferenda, nós rios encontramos perante Deus.

3) Note-se também aqui não só a substituição das figuras cerimoniais da lei pela realidade, mas também a diferença de princípio. A lei exigia que, para haver justiça, o homem fizesse a vontade de Deus; e era justo - era a justiça humana. Aqui Cristo toma sobre Si o fazer a vontade de Deus, e Ele a faz, oferecendo-Se a Si mesmo. O fato de Ele ter feito assim a vontade de Deus é a base da nossa relação com Deus. A vontade de Deus foi feita, e nós somos aceitos. Sendo nascidos de Deus, achamos as nossas delícias em fazer a Sua vontade, mas isto em amor e na nova natureza, e de modo nenhum para sermos aceitos.
4) Nas exortações, capítulo 12: 14, a Epístola fala dela; mas na doutrina da Epístola a palavra .• santificação" não é empregada no sentido daquilo que é praticamente operado em nós.

Os sacerdotes, entre os judeus (e este contraste ainda se mantém), ficavam de pé diante do altar, para continuamente repetirem os mesmos sacrifícios, que não podiam nunca tirar os pecados. Cristo, tendo oferecido um só sacrifício pelos pecados, assentou-Se para sempre(5) à direita de Deus (v.12). Ali, tendo concluído tudo o que era necessário para os Seus, no que concerne à sua apresentação perante Deus, sem mácula, Ele espera o momento em que os Seus inimigos serão postos por escabelo de Seus pés, segundo o Salmo 110: "Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés" . O Espírito dá-nos, para tal, uma razão muito preciosa, razão de uma importância infinita para nós, a saber, que "Ele aperfeiçoou para sempre aqueles que são santificados".

Aqui (v.14), como no verso 12, do qual este depende, a expressão "para sempre" tem a força de: em permanência, em continuidade, sem interrupção. O Cristo está sempre assentado; nós somos sempre perfeitos em virtude da Sua obra, segundo a perfeita Justiça na qual e em virtude da qual Ele está assentado à direita de Deus, no Seu trono, e segundo o que Ele é pessoalmente lá, segundo a Sua aceitação da parte de Deus, estando demostrada pela Sua permanência à direita de Deus. E Ele está lá por nós!

5) A palavra traduzida aqui" para sempre" não é mesma palavra empregada para eternamente; ela tem o sentido de continuamente, sem interrupção. Ele não Se levanta, nem permanece de pé. Está sempre assentado, pois consumou a Sua obra. Mas levantar-Se-á no fim, para vir buscar os Seus e para julgar o mundo, como nos é dito nesta mesma passagem.

É uma Justiça que caracteriza o trono de Deus: É a própria justiça do trono, não varia nem falha. Ele está assentado nesse trono para sempre. Portanto, se somos santificados, separados para Deus por esta oferenda, de harmonia com a vontade do próprio Deus, somos também aperfeiçoados para Deus, pela mesma oferenda, como apresentados perante Ele na Pessoa de Jesus.

Já vimos que esta posição dos crentes tem a sua origem na boa vontade de Deus, isto é, a vontade que reuniu a Sua graça e o Seu propósito formado, e que tem o seu fundamento e a sua certeza atual no cumprimento da obra de Cristo, cuja perfeição é demostrada pela Sua permanência à direita de Deus. Mas o testemunho pelo qual nós cremos nesta graça (porque, para dele gozarmos, é preciso saber com certeza divina que ela existe, e reconhecer o seu valor para nós; e quanto mais importante for este valor, mais o coração será levado a duvidar dele) deve ser divino - e ele o é! O Espírito Santo dela nos dá testemunho! A vontade de Deus é a fonte da obra; Cristo, o Filho de Deus, a realizou; o Espírito Santo dela nos dá testemunho! Ora aqui a aplicação ao povo, chamado e poupado por graça, é plenamente posta em evidência - e não somente o cumprimento da obra. O Espírito Santo é-nos testemunha: "E jamais me lembrarei dos seus pecados e das suas iniquidades".

Que preciosa posição! A certeza de que Deus nunca mais Se lembrará dos nosso pecados, nem das nossas iniquidades, é fundada sobre a firme vontade de Deus, sobre a perfeita oferenda de Cristo, assentado, por com se­guinte, à direita de Deus, segundo o infalível testemunho do Espírito Santo. É um tema de fé, para nós, que Deus não se lembrará mais dos nossos pecados.

Podemos notar aqui a maneira como a Aliança é introduzida; porque, embora o autor da Epístola, escrevendo aos "irmãos santos, participantes da chamada celestial”, diga: "nós dá testemunho", a forma do seu discurso é sempre a de uma Epístola aos Hebreus (crentes, bem entendidos, mas Hebreus, e, portanto, ainda no caráter de povo de Deus). O escritor inspirado não cita a Aliança como sendo um privilégio em que os cristãos tinham diretamente parte. O Espírito Santo - diz ele - declara:

"Não me lembrarei mais", etc. Eis o que Ele cita. Faz somente alusão à Nova Aliança, deixando­-a de lado quanto a toda a aplicação atual, porque, depois de ter dito: "Esta é a aliança(6)", etc., este testemunho é citado como sendo o do Espírito Santo, para demostrar o ponto capital de que trata a passagem: .Deus não mais Se lembrará dos nossos pecados. Mas aqui Ele faz alusão à Aliança já conhecida dos Judeus, como antecipadamente anunciada por Deus, que dava a autoridade das Escrituras ao testemunho que Deus não mais Se lembraria dos pecados do Seu povo santificado a admitido ao Seu favor. A passagem apresenta ao mesmo tempo, dois pensamen­tos: Primeiro, esse perdão completo não tinha lugar sob a primeira Aliança; e segundo, a porta é deixada aberta à bênção do povo, quando a Nova Aliança for formalmente estabelecida.

Uma outra conseqüência prática nos é apresentada, a saber, que os pecados tinham sido remidos, que já não há oblação pelo pecado. Tendo um só sacrifício obtido a remissão, não podem ser oferecidos outros sacrifícios para a obter. Pode bem existir uma lembrança desse sacrifício, seja qual for o seu caráter; mas um sacrifício para tirar os nossos pecados - que já foram tirados! - é doravante impossível. Estamos, pois, na realidade, num terreno inteiramente novo, o do fato de que, pelo sacrifício de Cristo, os nossos pecados são inteiramente abolidos, e de que, para nós, santificados, participantes da chamada celestial, a purificação dos nossos pecados, perfeita e permanente, já teve lugar, a remissão foi concedida e uma redenção eterna obtida; de sorte que estamos, aos olhos de Deus, sem pecado, na base da perfeição da obra de Cristo, que está assentado à Sua direita, tendo entrado no verdadeiro santuário, no próprio Céu, para ali ficar assentado, porque a Sua obra está concluída. Assim, temos plena liberdade {toda ousadia} de entrar nos lugares santos pelo sangue de Cristo, pelo caminho novo e vivo que Ele nos consagrou através do véu, ou seja, da Sua carne, para nos admitir sem mácula na presença do próprio Deus, revelado no santuário. Para nós, o véu está rasgado, e Aquele que o rasgou, para nos admitir no pecado que nos excluía. E, como temos visto, temos também um Sumo Sacerdote na Casa de Deus, que nos representa nos lugares santos.

6) Algumas edições traduzem" concerto" em vez de "Aliança". Neste caso, o significado é o mesmo. (N. do T.).

Sobre estas verdades são fundadas as exortações que se seguem. Digamos somente uma palavra, antes de as considerarmos, sobre a relação entre a justiça perfeita e o sacerdócio: Há muitas almas que se servem do sacerdócio como de um meio para obterem o perdão, quando têm pecado; e vão a Cristo, como Sacerdotes, a fim de que Ele interceda por elas e obtenha o perdão que elas desejam, mas não ousam pedi-lo a Deus diretamente. Estas almas, por muito sinceras que sejam, não têm a liberdade de entrar nos lugares santos; refugiam-se ao pé de Cristo, para serem de novo colocadas na presença de Deus. Estão realmente no mesmo estado em que se encontravam os Judeus piedosos: Perderam, ou antes, nunca tiveram a verdadeira consciência, pela fé, da sua posição perante Deus, em virtude do sacrifício de Cristo. Não falo aqui de todos os privilégios da Igreja; a Epístola não fala deles. Como vimos, a posição que ela estabelece aos fiéis é esta: Aqueles aos quais é dirigida não são consideradas como estando colocados no Céu, embora participando da chamada celestial; mas a redenção perfeita é realizada, toda a culpabilidade do povo é inteiramente tirada, e Deus não mais Se lembrará dos pecados deles. A consciência á aperfeiçoada; os crentes já não têm consciência de pecado, em virtude da obra realizada uma vez por todas. Já não há questão de pecado entre eles e Deus, isto é, da sua imputação, como se eles os tivessem sobre si na presença de Deus; não pode havê-la, devido à obra realizada na Cruz do Calvário. Assim, a sua consciência é perfeita; o seu representante e Sumo Sacerdote está no Céu ­sendo ali testemunha da obra já realizada por eles. Portanto, embora não estejam representados como assentados no lugar santíssimo, como no-los mostra a Epístola aos Efésios, têm plena liberdade, uma inteira ousadia para ali entrarem. A questão de imputação já não existe; os seus pecados foram imputados a Cristo. E Ele está agora no Céu, em testemunho de que os pecados estão apagados para sempre. Portanto, os crentes entram com inteira liberdade junto do próprio Deus; podem ali entrar sempre, não tendo nunca mais a consciência de pecado.

Para que serve então o Para que serve então o sacerdócio? Que resulta das faltas que nós cometemos? Na verdade, estas interrompem a nossa comunhão com Deus, mas não mudam nada à nossa posição na Sua presença nem ao testemunho da presença de Cristo à Sua direita, e também não levantam nenhuma questão quanto à imputação. São pecados contra esta posição ou contra Deus, avaliados segundo a revelação em que nós estamos com Ele, porque o pecado é avaliado pela consciência da nossa posição.

A presença contínua de Cristo à direita de Deus tem um duplo efeito para nós: Primeiro, somos aperfeiçoados para sempre, já não temos consciência de pecados perante Deus e somos aceitos; segundo, como Sacerdote, Ele o obtém a graça para dar socorro no momento oportuno, a fim de que nós não pequemos. Mas o exercício atual do sacerdócio não tem relação com os pecados. Em virtude da Sua obra, já não temos consciência de pecados; fomos aperfeiçoados para sempre.

Há uma outra verdade ligada a esta, que encontramos em 1 João 2: Temos um Advogado(7) para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo. É sobre esta verdade que a nossa comunhão com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo é fundada e assegurada. Os nossos pecados não são imputados, porque a propiciação está presente diante de Deus em todo o seu valor; mas, pelo pecado, a comunhão é interrompida. Todavia, a nossa justiça não é alterada - é o próprio Cristo à direita de Deus, em virtude da Sua obra. A graça também não é mudada, porque "Ele é a propiciação pelos nossos pecados”; mas o coração afastou­-se de Deus, e a comunhão é interrompida. Todavia, em virtude da perfeita Justiça, a graça atua pela intercessão de Jesus em favor daquele que errou, e a alma é restabelecida na comunhão. Não é que nós fôssemos a Jesus para que vai a Deus por nós. A Sua presença diante de Deus é o testemunho de uma Justiça imutável, que é a nossa; a Sua intercessão mantém-nos no caminho que devemos seguir, ou então, como nosso Advogado, restabelece a comunhão fundada sobre esta Justiça. O nosso acesso ao poder de Deus está sempre aberto; o pecado interrompe esse gozo; o coração não está em comunhão; a intercessão de Jesus é o meio de despertar a consciência pela ação do Espírito a da Palavra, e nós regressarmos, depois de nos termos humilhado, ao pé do próprio Deus. O Sacerdócio e a intercessão de Cristo referem-se ao estado de uma criatura que está sobre a Terra, imperfeita e falível, ou mesmo em queda, a fim de a reconduzir à perfeição do lugar e da glória onde a Justiça divina nos coloca. A alma é mantida ou então restaurada.

7) Há aqui uma diferença no pormenor, mas isso não afeta este tema. O Sumo Sacerdote tem a ver com o nosso caso até junto de Deus; o Advogado, com a nossa comunhão com o Pai e com o Seu governo de Pai a nosso respeito. A Epístola aos Hebreus trata daquilo que nos valeu o aces­so e demostra que nós somos aperfeiçoados para sempre. Ora a íntercessão do sacerdote não se aplica aos pecados sob este ponto de vista. Faz chegar a misericórdia e a graça para dar socorro no momento oportuno, mas nós somos aperfeiçoados para sempre perante Deus. Não obstante, a comunhão é necessariamente interrompida pelo menor pecado, pelo menor pensamento inope­rante - e ela o tinha sido realmente, praticamente, senãojudida1mente, mesmo antes da concepção desse pensamento. É aqui que a intervenção do Advogado, de que João nos fala, tem o Seu lugar:
"Se alguém pecar" - e a alma é restaurada. Mas para o crente não há jamais imputação.

As exortações continuam.

Tendo o direito de acesso até Deus, aproximemo-nos com um coração reto, em plena certeza de fé. É a única coisa que honra a eficácia da obra de Cristo e o amor que nos levou a gozarmos da presença de Deus. No que se segue é feita alusão a consagração dos sacerdotes, alusão assaz natural, pois trata-se de se aproximarem de Deus no lugar santíssimo. Os sacerdotes eram aspergidos com o sangue e lavados com água; em seguida aproximavam-se para servir a Deus. Porém, embora eu não duvide de que seja feita alusão aos sacerdotes, é muito natural que o batismo tenha dado lugar a esta alusão. Não se trata de unção aqui; é o poder do direito moral de se aproximarem.

Além disso, podemos notar que, para a base da verdade, será sobre este mesmo terreno que Israel será colocado nos últimos dias. O lugar de Israel não será em Cristo, no Céu, e o povo não será a possessão do Espírito Santo, como o crente que Ele une a Cristo no Céu; mas a bênção do povo será fundada sobre a água e sobre o sangue. Deus já não Se lembrará dos pecados do Seu povo, que será levado na pura Água da Palavra de Deus.

A segunda exortação consiste em perseverar na profissão de fé, sem vacilar. Aquele que fez as promessas é fiel. Não só deveríamos ter estas confiança em Deus para nós mesmos, mas pensarmos também uns nos outros para mutuamente nos encorajarmos; e, ao mesmo tempo, não faltarmos à profissão pública e comum da fé, pois, por vezes, embora pretendendo

mantê-la, evitamos a aberta identificação de nós próprios com o povo do Senhor nas dificuldades resultantes da profissão desta fé perante o mundo. Aliás, esta confissão encontrava um novo motivo no fato de o dia se aproximar (v. 23-25). Vê-se que é o Julgamento que nos é apresentado aqui como objeto de espera - para que atuasse sobre as consciências e garantisse os Cristãos do regresso do Senhor ao mundo, ou do efeito do temor dos homens - antes da vinda do Senhor para tomar os Seus para Si. O verso 26 refere-se ao conjunto dos versos 23 e 25; as últimas palavras deste último verso sugerindo a advertência do v. 26, fundado, de resto, sobre a doutrina dos dois capítulos (9 e 10) acerca do servo. A advertência insiste sobre a perseverança na confissão franca de Cristo, porque não há senão um sacrifício uma vez oferecido. Se aquele que professava ter reconhecido este valor desse sacrifício e abandonava, não havia nenhum outro no qual pudesse encontrar recurso. E também se não repetia; portanto, já não restava sacrifício para o pecado. Todo o pecado era perdoado por virtude desse sacrifício; mas se, após termos conhecido a verdade, se preferia o pecado, já não havia sacrifício, mesmo em virtude da perfeição do de Cristo. Já não restava senão o julgamento. Tendo tido conhecimento da verdade e tendo­-a abandonado, aquele que tinha feito uma tal profissão tomava o caráter de inimigo.

O caso aqui suposto é, pois, o abandono da confissão de Cristo, quando se tem conhecido a verdade, preferindo deliberadamente e segundo a própria vontade de andar no pecado. Isto é evidente, conforme o que precede o verso 29.

Assim, encontramos (capítulos 6 e 10) os dois grandes privilégios do Cristianismo, o que o distingue do Judaísmo, apresentados para advertir aqueles que faziam profissão do primeiro, de que o abandono da verdade, depois de ter gozado dessas vantagens, era fatal- pois não havia outro meio de salvação, tendo renunciado a este. Esses privilégios eram a presença e o poder manifesto do Espírito Santo, e a oferenda que, pelo seu valor intrínseco e absoluto, não deixava lugar para nenhum outro. Havia nestes dois privilégios um poder eficaz que, enquanto, por um lado, dava um impulso, uma força divina ao verdadeiro crente, e a manifestação da presença de Deus, por outro lado fazia conhecer a redenção eterna e a perfeição do adorador. Não deixava nenhum meio de arrependimento, se se tivesse abandonado o poder manifestado e conhecido dessa presença; nenhum lugar para um outro sacrifício (que, de resto, teria negado a eficácia do primeiro), após a perfeita obra de Deus em salvação, perfeita quer a respeito da redenção, quer a respeito da presença de Deus pelo Espírito . no meio dos Seus. Não restava senão o julgamento.

Os que tivessem desprezado a lei de Moisés morriam sem misericórdia. Se alguém pisava aos pés o Filho de Deus, se considerava profano o sangue da Aliança pela qual tinha sido santificado, se tinha ultrajado o Espírito de graça, o que não merecia essa pessoa da parte de Deus? Não se tratava simplesmente de desobediência, por muito culpável que ela fosse; era o desprezo da graça de Deus e do que Ele tinha feito na Pessoa de Jesus para nos livrar das conseqüências dessa desobediência. Por um lado, que restava, se alguém O tinha abandonado, sabendo Quem Ele era? E, por outro, como escapar o Julgamento? Os Hebreus conheciam um Deus que tinha dito que a vingança U1e pertencia, e que Ele retribuiria; e ainda que o Senhor julgaria o Seu povo.

Note-se aqui de que maneira a santificação é atribuído ao sangue, e como os crentes são tratados como pertencendo ao povo. O sangue, recebido pela fé, separa a alma para Deus; mas é também considerado aqui como um meio exterior para separar o povo, como tal considerado. Se um indivíduo tinha reconhecido Jesus como sendo o Messias, e o sangue como selo e fundamento de uma Aliança eterna, válida para uma purificação e para uma redenção eternas da parte de Deus; se reconhecia para ser, por esse meio, separado para Deus, como sendo um dos do Seu povo; se abandonava tudo isso, esse abandono era feito com perfeito conhecimento. Já não havia meio de o santificar. O sistema antigo tinha, evidentemente, perdido a sua força para ele, e quanto ao verdadeiro sistema divino, ele o tinha abandonado. É por isso que nos é dito no verso 26: "Depois de termos recebido o conhecimento da verdade”.

Todavia, o autor da Epístola espera melhores coisas, porque havia ali fruto - e o fruto é sinal de vida. Recorda-lhes o quanto eles tinham sofrido pela verdade e mesmo aceitado com alegria a espoliação dos seus bens materiais, sabendo que tinham uma parte melhor e permanente no Céu. São, pois, exortados a não rejeitarem esta confiança, que tinha uma grande recompensa; porque nós temos, com efeito, necessidades de paciência a fim deque, tendo feito a vontade de Deus, recebamos o efeito da promessa. E em breve Aquele que há-de vir virá.

É a esta vida de paciência e de perseverança que o capítulo se aplica. Mas há um princípio que é a força desta vida, e que a caracte­riza(v. 37-39); No meio das dificuldades da marcha cristã "o justo viverá da fé"; e se alguém recua, Deus não terá prazer nele. Mas nós - diz o autor, colocando-se, como sempre, no meio dos crentes - não somos daqueles que se retirem, mas sim daqueles que crêem para a conservação da alma. A este respeito, ele descreve a ação desta fé, encora­jando os crentes pelos exemplos dos antigos, que tinham adquiridos a sua fama andando no mesmo princípio segundo o qual os fiéis eram agora chamados a andar

 

“Permanecei em Mim”